Por Manuel Gregório

A arte de restaurar à conta do amor

A arte de restaurar à conta do amor

 

João Rocha   Regional   7 de Dez de 2017, 09:25

Manuel Gregório da Silva Melo é um artista. Não cria obras de arte, mas, tão importante quanto isso, não as deixa morrer. Numa analogia com o que acontece com os serviços de saúde, diríamos que Manuel Gregório trabalha nos cuidados intensivos do mundo artístico. As peças chegam-lhe às mãos em estado deplorável e ele, no exercício das suas funções de Técnico de Restauro e Conservação, transforma a escuridão da degradação no esplendor da arte.


Tudo começou nas obras... de construção civil, onde Manuel Gregório trabalhou antes de cumprir serviço militar - natural da Graciosa, vive na ilha Terceira desde os 12 anos de idade.

Depois da tropa, andou uma mão cheia de anos na Biblioteca de Angra do Heroísmo. Só depois disso, começou a exercer funções no Museu, na qualidade de guarda.

Passada mais de uma vintena de anos, alcançou a posição de técnico auxiliar de Museografia, tendo como incumbência a inventariação das obras de arte.

Face à sua habilidade manual - dom que vem da parte paternal -, foi convidado a frequentar uma acção de formação profissional, durante seis meses em 1977, na Fundação Ricardo Espírito Santo.

Ganhava, então, equiparação profissional a Técnico de Restauro e Conservação, passando a trabalhar no Centro de Estudo, Conservação e Restauro dos Açores.



No Centro de Restauro, do qual se aposentou em setembro de 2002, Manuel Gregório ocupava boa parte do tempo a recuperar peças de arte sacra.

Lembra-se que, em 1989, recuperou o primeiro altar - o da Igreja dos Altares, na ilha Terceira.

A partir daí foi um nunca mais parar em intervenções nas igrejas espalhadas por várias ilhas do arquipélago, sobretudo na recuperação de altares, imagens de arte sacra e talhas.

Manuel Gregório acentua que muitas destas peças chegam às suas mãos em péssimo estado de conservação, derivado de problemas com a humidade e chuvas.

O seu trabalho desenvolve-se por etapas minuciosas. Por exemplo, no caso da recuperação de um altar, tudo começa pela acção de limpeza. Seguem-se a colagem de talha solta, preenchimento de todas as lacunas, doiramento das talhas e pintura das partes baixas. Chega depois a altura da bordagem com folha de oiro (o recorte é feito através de tinta própria) para que se conclua a tarefa de restauro.

Coleção de cerâmica

"O amor é o verdadeiro motor da vida". Com 74 anos de idade, Manuel Gregório fundamenta-se no sentimento mais intenso para justificar o empenho na profissão.

"Às vezes prefiro cobrar menos no restauro de uma peça, para que depois as pessoas passam a olhar com outros olhos para o meu trabalho" - acentua o Técnico de Restauro e Conservação, apostado em deixar "marca pessoal".

Na reconstituição de cada peça de arte, gosta de ver projectados o amor e amizade. "A minha vida tinha de ser esta. Dá-me imenso prazer ver os fiéis a comentar o embelezamento da sua igreja" - sublinha Manuel Gregório, que também encontra terreno fértil para paixões fortes nas porcelanas e loiças.

De resto, na área de cerâmica é o único técnico existente nos Açores. "A área da de cerâmica é muito complicada de trabalhar, além de ser menos rentável, em termos económicos, do que a pintura e escultura".

Recebe solicitações de todas as ilhas e do continente. As peças surgem na sua oficina (situada na Rua Frei Diogo das Chagas, nº 60-A, em Angra do Heroísmo) com sinais de profunda deterioração, decorrentes, em muitos casos, do sismo de 1980.

As pessoas acabam por desconhecer a existência de "autênticos tesouros" nas suas casas, optando por utilizar valiosas peças de cerâmica como bebedouros para galinhas ou vasos de plantas, sem falar das situações em que “pura e simplesmente atiram para a ribeira”.

Como contraponto ao desleixo, Manuel Gregório orgulha-se de possuir a maior colecção de cerâmica na ilha Terceira.

O pontapé de saída foi dado com a aquisição de 80 peças. Hoje são mais de 1600, sem que haja uma única repetida.

A cerâmica, cuja actividade se findou na ilha em 1975, ganha forma de objectos de uso corrente como pratos, travessas, sopeiras, terrinas, potes e boiões. As cores padrão da produção cerâmica terceirense baseavam-se no branco e azul.

As peças, em norma, reproduziam imagens que serviam de homenagens a atividades, monumentos e festas. Até os bêbados não foram esquecidos.

O gosto de colecionar acompanha Manuel Gregório desde sempre.

“Na minha casa, tenho mais de mil garrafas clássicas, além de moedas e relógios de bolso. Se encontro um parafuso na rua, acabo por o trazer comigo”, concretiza.





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