Pico

No Carnaval da Ponta da Ilha há testamento de uma burra

No Carnaval da Ponta da Ilha há testamento de uma burra

 

Célia Machado   Cultura e Social   15 de Fev de 2018, 09:26

É uma tradição carnavalesca das freguesias da Ponta da Ilha, no Pico, o bando da burra. Na Piedade, na Ribeirinha e na Calheta de Nesquim a tradição repete-se a cada entrudo.



Este ano acompanhámos o dia do bando da burra na freguesia da Piedade, onde, na tarde da chamada Terça-feira Gorda, a população e forasteiros juntam-se no centro da localidade, no Curral da Pedra. Os mais destemidos apresentam-se com alguma fantasia, ou roupas mais velhas, e um saco de farinha; os mascarados têm a garantia de que a farinha não lhes será atirada; e, os outros, ficam por ali, nos carros, sentados mais ao longe, nalgum muro ou junto à capela do Espírito Santo, para apreciar o Carnaval mas sem sujar a roupa. Há viaturas enfeitadas e a filarmónica da Associação Musical e Cultural da Piedade vai tocando alguns temas pelo largo, de forma a animar todo o recinto. Por aqui e por ali, em redor do coreto, faz-se a batalha de farinha que dura até a noite já ir longa, sendo apenas interrompida quando o bando da burra entra em cena, lá pelas seis da tarde, e retomada logo em seguida. Entre os mascarados, há os que são chamados de "velhos", que passeiam-se pelo recinto e que, volta e meia, dizem "Anda brindar o velho" a alguém que encontram e o qual levam para a tasquinha, montada apenas para este dia. Há mesmo quem ande na festa com um saquinho de rebuçados para dar um aos "velhos" que por ali andam mascarados (a maior parte destes "velhos" são jovens).

Crianças, jovens e adultos, de qualquer idade, apreciam esta peculiar tarde de Carnaval que tem o ponto alto com a entrada em cena dos mestres das rimas que formam o bando da burra. Os textos são preparados, por vezes, apenas escassas horas antes da leitura pública dos mesmos, que acontece sempre no coreto. Este ano o bando apresentou-se com uma dezena de homens e um burrinho bem enfeitado. Como é habitual, as pessoas juntam-se em frente ao bando que, sem microfone, começa a ler o texto tão aguardado. Ilídio Freitas, Hélder Vieira, Cremildo Marques e Nelson Vais são os que dão voz às quadras compostas pelo bando. A leitura do bando, sempre com rima mais ou menos perfeita e sem palavras proibidas, compreende os acontecimentos que marcaram, sobretudo, a localidade nos tempos mais recentes, a vida da burra falecida assim como os contornos da sua morte e, numa segunda parte, o testamento que o jumento terá deixado, distribuindo as diversas partes do seu corpo a quem delas precisa. Cada quadra, depois de lida, é acompanhada por um audível "auuuuuaaaa!", dito pelo bando e com o apoio do público presente.

O bando da burra não é mais do que uma crítica social, com humor e uma pitada de picante, e que deve ser ouvido com o espírito aberto. Quem se mostrar ofendido, o mais certo é ouvir, ali mesmo, uma segunda quadra, improvisada na hora, que lhe é dedicada mas com mais algum toque de picante ou ser mencionado, novamente, no ano seguinte e com uma crítica maior.

É raro o ano em que não morre um burro ou cavalo na freguesia pelo que não falta assunto para o bando. Porém, ainda que os piedadenses gostem da terça-feira de Carnaval da freguesia, certo é que, por vezes, para não serem o alvo principal do bando, alguns donos destes quadrúpedes tentam esconder a morte do seu animal... nem sempre com sucesso.



Origem do bando da burra

Em maio de 2009 três jovens piedadenses, Filipe Costa, Carlos Freitas e Fábio Vieira, lançaram a obra O Bando da Burra que compila, pela primeira vez, parte desses textos produzidos ao longo dos anos na Piedade, com o mais antigo datado de 1936. Infelizmente, muitos perderam-se com o tempo.

Na nota introdutório do livro, outro piedadense, Thiers Cunha, entretanto já falecido, refere que "o bando era, antigamente, uma forma de anunciar um acontecimento de interesse comunitário, que decorria em determinadas épocas do ano", tendo, então, sofrido uma mutação para crítica social. Lembra que o testamento era, no passado, exclusivo dos ricos pelo que "os pobres, na ausência de bens e dessas inquietações deles derivadas, divertiam-se parodiando o testamento possível". "Estas manifestações, inocentes e tão populares, eram censuradas pelo Estado Novo", escreveu Thiers Cunha, que identificou algumas semelhanças entre os bandos de Carnaval da Ponta da Ilha e bandos carnavalescos de localidades do norte do país, concluindo que a tradição deve ter sido trazida aquando do povoamento do arquipélago.



Ensinar a tradição aos mais novos

A Escola da Ponta da Ilha, na Piedade, na qual estudam crianças da Ribeirinha, Piedade e Calheta de Nesquim, valoriza também esta tradição. Na quinta-feira que antecede o fim de semana de Carnaval, as crianças que ali estudam, desde o ensino pré-escolar ao segundo ciclo, fazem também a sua festa no Curral da Pedra e sobem ao coreto com o seu próprio bando. Daqui a alguns anos, caberá a eles garantir que este costume tem continuidade.


Excerto do bando de 2018

Este ano estava complicado/pois os burros não são demais/à última da hora descobrimos/a morte de um burro nos Fetais

Já tinha muitas milhas passadas/mas era animal bem fino/ele foi enterrado/num lugar clandestino

O animal era velhinho/andava em passo muito lento/agora vamos dizer/a quem deixou o testamento

Acartou uvas da Manhenha/e também da Engrade/deixou as tripas para cabos/para os marítimos da Piedade

Também o freio do burro/que era da cor do alcatrão/fica para o Mário Oliveira/pôr no carro um travão

A cilha do burro/era lisa, não tinha alças/fica para o José Cebola/fazer um cinto para as calças

Ao Luís do Manuel Albino/o seu coração fica/não come, não bebe e não dorme/quando perde o seu Benfica

À junta de freguesia deixou/a cabeça e quase tudo/à secretária e tesoureiro/e ao presidente barbudo

Ele era muito malino/tinha os olhos no seu lugar/ficam para o José Adelino/para poder enxertar

E o Rogério Bettencourt/que não é pessoa má/fica com a pele do burro/para descansar no sofá

A inteligência do burro/que está sempre no lugar/fica para os universitários/que nos vieram visitar

Vamos acabar o bando/não queremos amuados/amanhã é quarta-feira de cinzas/e dia dos namorados




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