Livro de jornalista espanhol refere que narcotráfico continua ativo na Galiza

Livro de jornalista espanhol refere que narcotráfico continua ativo na Galiza

 

Lusa/Ao online   Internacional   9 de Jun de 2018, 09:11

O autor do livro “Farinha”, sobre a história do narcotráfico na Galiza, defende que as organizações criminosas de traficantes de droga continuam em constante atividade no noroeste de Espanha, apesar da falta de atenção mediática e judicial.

“Há muito mais; há clãs e estão organizados. Cada vez melhores e mais fortes. Mas a imprensa já não se interessa. Estamos há um ano atrás de um chefe e não conseguimos nada. O juiz cansa-se e impede-nos a investigação. Todo este desinteresse geral beneficiou-os. Está a beneficiar os maus”, diz um agente da Guarda Civil ao jornalista Nacho Carretero, autor do livro “Farinha” (designação atribuída à cocaína pelos traficantes galegos desde os anos 1980).

O texto frisa, citando um juiz que pediu para não ser identificado no livro, que, tal como aconteceu em 2003, os traficantes colombianos “experimentaram a Andaluzia”, sul de Espanha, mas “acabaram escaldados”.

“Na Andaluzia agarram o carro e podemos segui-los durante 80 quilómetros e eles nem se dão conta. Aqui, se estamos dez minutos a seguir um chefe galego, ele fica desconfiado. Os narcotraficantes galegos são os melhores e com muita distância, por isso os colombianos gostam deles”, acrescenta uma outra fonte policial sobre a situação atual na Galiza.

No passado mês de março, um tribunal ordenou a retirada do livro das livrarias na sequência de um processo interposto por Jose Allfredo Bea Gondar, ex-presidente da Câmara de O Govre (Pontevedra), referido como tendo estado envolvido num desembarque de cocaína na Galiza.

Mesmo assim, "Farinha" é vendido em Espanha em formato digital e deu origem a uma série de televisão, em Espanha.

Citando fontes jornalísticas, policiais e judiciais, Nacho Carretero, jornalista do diário El Pais, faz ao longo do livro o historial do tráfico ilegal de cocaína e haxixe, atividade ilegal que tem como origem o contrabando de tabaco desde meados do século XX e de todo o tipo de produtos que caracterizaram as várias fases das redes de contrabando com Portugal.

“O primeiro salto qualitativo do contrabando galego foi dado no início dos anos 1980, quando a nova fornada encabeçada por ‘Terito’ e ‘Néné’ (traficantes) decidiu romper com os fornecedores portugueses.

O contrabando afastou-se definitivamente da fronteira e instalou-se nos meandros das Rias Baixas”, recorda o autor referindo-se ao início dos anos 1980 depois de aprofundar as relações entre o submundo do crime na zona de fronteira.

“Trazer de Portugal alguém que possa dar um castigo custa apelas um milhão de pesetas” é uma das ameaças atribuídas a “Falconetti” alcunha de Luis Falcón Pérez, um dos “senhores do contrabando” da ria galega.

Segundo Nacho Carretero, o contrabando de café, alimentos, vestuário e mesmo produtos médicos e farmacêuticos deixou de ter relevância, mas o norte de Portugal continuou e "continua a ser" um território de retaguarda para traficantes galegos em fuga à Justiça ou das vinganças internas.

É também utilizado para encontros secretos ou para a formalização de negócios de fachada, principalmente com a finalidade de branquear capitais obtidos de forma ilícita, diz o autor.

A história do narcotráfico na Galiza conhece as relações com os cartéis colombianos de Medellín e de Cáli e o início do uso de lanchas rápidas que fazem ligações entre os navios provenientes da América do Sul com os "fardos de droga", o que transformou a costa galega na "maior porta de entrada de cocaína" do continente Europeu.

Um dos momentos centrais da história do narcotráfico galego, conta o autor, é a “Operação Nécora” protagonizada pelo juiz Baltazar Garzón no dia 12 de junho de 1990 e que dá início a uma nova postura das autoridades policiais e judiciais.

A aprovação de legislação sobre sigilo bancário e branqueamento de capitais é um exemplo dessa mudança.

Ao longo do livro são referidas igualmente as relações entre os contrabandistas e traficantes e os políticos locais desde o período do contrabando de tabaco até ao caso, tornado público em 2013, das fotografias (datadas de 1995) do atual presidente da Xunta da Galiza, Alberto Nuñes Feijóo do Partido Popular com Marcial Dorado, conhecido contrabandista galego.

“Na Galiza não houve um único partido que não tivesse sido financiado pelos narcotraficantes. Nem um”, conta um juiz galego, não identificando, ao autor do livro “Farinha” que aborda igualmente a exposição da sociedade local à presença de drogas duras.

O livro refere que a incidência de sida em Espanha entre 1986 e 2003 – época em que a maioria dos casos provinha do contágio entre toxicodependentes – era de 105 por cada mil habitantes.

Na Galiza, a média era de 72 pessoas, mas em zonas como Salnés ascendia a 147 sendo que, em 1995, um terço das escolas galegas “admitia que se vendia droga nos seus arredores”.

“Só nesse ano morreram na Galiza 53 pessoas de ‘overdose’. A taxa de consumo de cocaína em Salnés era a mais alta de Espanha”, recorda Nacho Carretero.

O livro “Farinha” de Nacho Carretero (Edições Desassossego, 303 páginas) é apresentado na segunda-feira em Lisboa.




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