Medicina do trabalho é uma fraude e devia ser nacionalizada, garante Associação de Diabéticos

Medicina do trabalho é uma fraude e devia ser nacionalizada, garante Associação de Diabéticos

 

Lusa/Ao online   Nacional   15 de Jul de 2018, 15:00

A medicina do trabalho em Portugal é uma fraude e devia ser nacionalizada, defende a mais antiga associação de doentes do mundo, ao mesmo tempo que os médicos do trabalho assumem que há empresas a coagir clínicos e trabalhadores.

José Manuel Boavida, presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, assume que ainda há muito estigma em relação a uma doença e que nem sempre a medicina do trabalho é uma garantia de proteção dos trabalhadores.

“A medicina do trabalho é uma fraude. Toda cheia de boas intenções, mas a grande maioria das empresas de medicina do trabalho não tem autonomia em relação à entidade patronal”, afirma José Manuel Boavida, em entrevista à agência Lusa.

Lembrando que é atualmente “um negócio de milhões”, o médico diz que a maioria das empresas de medicina do trabalho não tem autonomia em relação à entidade patronal. Por isso, defende a nacionalização, como medida para tornar a medicina do trabalho “autónoma”, considerando que as empresas deviam “pagar a uma medicina do trabalho pública”, para que fosse o garante da proteção dos trabalhadores.

A Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho admite que muitas vezes “há conflitos” entre o empregador e os médicos do trabalho.

Jorge Barroso Dias, presidente da Sociedade, explica que, quando um trabalhador tem uma sequela ou uma doença, cabe ao médico do trabalho promover uma ficha de aptidão onde são identificadas as eventuais restrições.

“Muitas vezes há conflitos com a medicina do trabalho e o empregador não gosta de receber uma ficha com restrições”, indica.

Outras vezes, sobretudo com as restrições mais significativas, o que ocorre é que a empresa exerce pressão sobre o trabalhador para que não acate as restrições definidas pelo médico.

José Manuel Boavida também identifica este problema nos milhares de doentes crónicos que já seguiu: “Quando se tenta que a medicina do trabalho imponha condições para ajudar as pessoas, o que nos é respondido é que isso se pode voltar contra os próprios trabalhadores”.

O especialista em diabetes conhece bem este panorama da pressão sobre os trabalhadores, que leva doentes crónicos como os diabéticos “a tentar esconder a sua doença” no mundo laboral, também com receio do estigma e da discriminação.

Noutras patologias é igualmente sentida a falta de um apoio eficaz da medicina do trabalho, como nos hemofílicos.

Em testemunhos recolhidos junto da Associação Portuguesa dos Hemofílicos, há doentes que referem que “a medicina do trabalho não está vocacionada para lidar com as limitações” desta doença.

“As empresas de medicina de trabalho, em regime de ‘outsourcing’, omitem por vezes limitações físicas encontradas, dando os inspecionados como aptos”, refere um dos doentes hemofílicos à Lusa, que pediu para não ser identificado.

São comuns a várias doenças crónicas queixas sobre a falta de adequação dos postos de trabalho ou adaptação de funções para os doentes.

Contudo, em quatro anos, apenas foram atribuídos 21 apoios para adaptação de postos de trabalho e eliminação de barreiras arquitetónicas.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, não há registo de pedidos de apoio que tenham ficado por satisfazer, o que mostra que as empresas recorrem pouco a esta ferramenta de apoio, num país em que em cada 10 cidadãos há quatro que têm mais de duas doenças crónicas.




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