40 anos após o falecimento do poeta de "Ilha Maior", no Pico

Almeida Firmino ainda existe?

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Célia Machado   Regional   23 de Dez de 2017, 14:30

Almeida Firmino deixou mais do que uma gabardine e um guarda-chuva quando adormeceu nas águas salgadas, junto ao moinho da Lapinha, em São Roque do Pico, na manhã de 14 de novembro de 1977. O poeta de "Ilha Maior", que não sendo picoense de berço deixou-se adotar pela ilha, quis aqui ter a sua sepultura. No ano do 40.º aniversário do seu falecimento, procuramos o seu legado e a memória que a ilha guardou de um dos seus maiores poetas.

Almeida Firmino, nascido em Portalegre, em 1934, chegou ao Pico na década de 1950 para assumir as funções de escriturário do tribunal de São Roque, no antigo Convento de São Pedro de Alcântara, mas, atualmente, é considerado um dos grandes poetas da ilha. O picaroto Manuel Tomás, jornalista, escritor, poeta e com um longo historial na docência, coloca-o mesmo no grupo dos melhores do Pico. "Para mim, Almeida Firmino, juntamente com Dias de Melo, José Martins Garcia, José Enes e Nunes da Rosa - e estou a falar daqueles que se libertaram já da lei da morte - são os nomes maiores da nossa literatura. E ler um poema dele, de vez em quando, faz muito bem à saúde", afirma Manuel Tomás (quem se vê no vídeo).

O poeta conseguiu sentir as dores do ser ilhéu e elevou o Pico a "Ilha Maior". "Foi alguém que se agarrou tanto à ilha que quis mesmo ficar preso a ela. Talvez seja o poeta que mais sentiu esta ilha, a ilha em geral, o estar isolado, a insula, verdeiramente dita. Mas ele conhecia o mundo. Às vezes, não gosto quando dizem que ele estava demasiado ilhado, transformado em ilha, como se isso fosse só sinónimo de isolamento total e não percebesse o que estava à sua volta. Não, ele percebia. Aliás, o poema emblemático 'Ilha Maior' é sinal disso", defende Manuel Tomás, reconhecendo-lhe qualidades de um ser insular. E sobre o escrito mais conhecido de Almeida Firmino, Manuel Tomás acrescenta, em jeito de análise: "Não é um poema que fique consignado a um tempo histórico desta ilha do Pico. 'Ilha maior no sonho e na desgraça'... se calhar uma parte continua a ser porque todos nós queremos que ela seja maior no sonho e, por aí, mantém-se sempre atualizado. E 'na desgraça' no sentido também daquilo que andamos à procura porque desgraça e fome, que não são positivas, trazem consigo qualquer coisa que deve provocar, na procura, o encontrar daquilo que há-de resolver essa dificuldade. E depois o poema continua com 'a acenar aos navios que ao longe passam rumo ao Canadá e América'. Isto, em sentido figurado, continua a ser atual. Aliás, a juventude que sai do Pico quando é que volta? Quem é que volta? Voltam alguns, meia dúzia, por várias razões. Se calhar há uma parte da desgraça, de que fala o poema, que continua viva, como sejam o emprego, a ocupação das pessoas. Há uma busca constante de melhorar, de procurar fora, de sair daqui mas gostando, sempre, de cá estar".

Quando se lançou ao mar, o que deixou, afinal, o poeta? "Ele deixou a sua poesia, fundamentalmente, embora também alguma prosa. Ainda hoje publicar poesia é complicado e só os grandes nomes conseguem maiores tiragens. No tempo dele ainda era mais difícil. Ele fazia edições de autor, pequenos livros de 30/40 páginas, e, provavelmente, os hábitos de leitura à volta dele não seriam muitos", refere Manuel Tomás.

E a ilha, de que forma continua presa a Almeida Firmino?

Curiosamente este admirador da obra de Almeida Firmino conheceu o poeta apenas algumas semanas antes da sua morte e não houve muito contacto: "O padre Tomás Cardoso apresentou-me ao Almeida Firmino em julho de 1977. Eu conhecia-o já da sua poesia mas nunca tinha tido contacto com ele pois eu vivi sempre fora da ilha até aos 32 anos, só passava cá as férias de verão. Quando vim para o Pico em 1982 ele já tinha morrido e foi aí que o conheci verdadeiramente pela sua obra. O poeta não morre, o poeta ainda existe e disso há vários sinais".

Narcose, editado pela primeira vez em 1982, pela Secretaria Regional da Educação e Cultura, e reeditado em 2009, pela autarquia de São Roque, é o livro que compila toda a sua obra; em São Roque foi atribuído o seu nome a uma das suas ruas; em 1990 a Câmara Municipal de São Roque instituiu o Prémio Literário Almeida Firmino, que continua a realizar-se de dois em dois anos; em meados da mesma década Roberto Lino, músico picoense posteriormente radicado nos Estados Unidos da América, cantou Almeida Firmino ao compôr a melodia para o poema "Cais" e dar-lhe voz num trabalho a solo, para o qual também tocou; em 2000 o município de São Roque inaugurou o Monumento ao Baleeiro, instalado no Cais do Pico, e perpetuou em frente à Fábrica da Baleia, atual Museu da Indústria Baleeira, um excerto do poeta; no ano passado foi o bólingue café, também no Cais do Pico, que abriu ostentando, numa das suas paredes, a face do poeta e o poema "Ilha Maior", em português e em inglês, e, já este ano, foi a Escola Básica e Secundária de São Roque que homenageou Firmino ao atribuir o seu nome à biblioteca daquele estabelecimento de ensino. Há, no entanto, desde 1988, uma homenagem que se renova a cada semana, a partir da vila da Madalena: o jornal Ilha Maior, que teve na sua fundação e como primeiro diretor Manuel Tomás e cujo título não foi escolhido ao acaso. "No primeiro ano, havia uma frase que aparecia em quase todas as edições: 'Ilha maior no sonho e na desgraça, diz o poeta; ilha maior no sonho e na realidade queremos nós' e este foi o lema de ter feito o jornal", explica.

Um outro Cais

E o Cais do Pico, será ainda o mesmo por onde andou Almeida Firmino? Manuel Tomás responde com um seguro não. O Cais mudou até de cheiro: o odor intenso, do tempo em que a Fábrica da Baleia laborava, desapareceu e a paisagem, no geral, está muito melhor. Este já não é, em parte, o Cais do Pico por onde Almeida Firmino andou. "Este Cais está mais bonito mas há coisas que, no tempo dele, também eram bonitas; porém, agora está também mais arejado, muito melhor", responde.

Almeida Firmino foi aluno de José Régio e por este foi influenciado para a escrita. Nessa época publicou os seus primeiros poemas. Em 1953 chegou aos Açores com o pai que havia sido colocado na secretaria do tribunal de Angra do Heroísmo. Na ilha Terceira trabalhou na Base das Lajes mas teve de se ausentar do arquipélago para cumprir serviço militar, findo o qual regressou à região e foi colocado como escriturário no tribunal de São Roque. Há ainda a registar que a partir de 1957 publicou diversos livros da sua autoria, que foi um dos co-diretore da revista de arte "Gávea", conjuntamente com Emanuel Félix e Rogério Silva, e colaborou com outras publicações.





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