"É preciso trabalho de reconciliação com a sociedade em todo o país"

"É preciso trabalho de reconciliação com a sociedade em todo o país"

 

Paula Gouveia   Nacional   12 de Jan de 2018, 20:30

Rui Rio sabe este sábado se será o próximo presidente social-democrata. Quando esteve em São Miguel alertou para o risco que o PSD corre de “quase desaparecer” se nada se fizer. Releia a entrevista dada pelo candidato ao Açoriano Oriental, a 24 de novembro.


Disse que o PSD não é nem será um partido de direita. O que significa isso na prática?

Na prática, significa que o PSD, tal como o nome indica é um Partido Social-Democrata, defende a social-democracia. (...) Não somos um partido que adota sempre uma visão de direita, liberal, para a solução dos problemas, e que acredita que o mercado resolve tudo... o mercado resolve tudo com custos sociais muito pesados e o Estado tem de intervir muitas vezes para atenuar os custos sociais. Por outro lado, não somos um partido de esquerda que acha que a solução está sempre na intervenção do Estado. Vemos isto com o equilíbrio necessário: é precisa a intervenção do Estado muitas vezes para minorar os prejuízos sociais. E abraçamos os valores fundamentais da social-democracia: a igualdade de oportunidades, a solidariedade, a liberdade. Valores que a seguir ao 25 de Abril de 1974 estavam na boca de toda a gente, mas que têm de ser permanentemente praticados, porque se perdem com mais facilidade do que se pensa. (...)

Reconheceu que o PSD atravessa uma fase “particularmente difícil” e que é necessário reconciliar os portugueses com o PSD. Como se chegou a esta situação e de que modo é que o pretende fazer?


O diagnóstico é absolutamente factual se olharmos para o resultado eleitoral do PSD em autárquicas - que é o mais relevante, uma vez que as autarquias é que dão implantação ao partido no terreno, e não o número de deputados na Assembleia da República. No primeiro grupo parlamentar de que fiz parte, éramos no PSD 135 [deputados] e hoje somos 89. Isso naturalmente mede a dimensão de um partido, mas num partido grande a sua real dimensão mede-se muito mais pela implementação no terreno ao nível das juntas de freguesia e câmaras municipais. Nós já tivemos em 2005, 157 câmaras municipais, hoje temos 98. Temos vindo sempre a cair. Se olharmos para as votações nos grandes centros urbanos, tivemos cerca de 10% no Porto e Lisboa. Isso tem de se inverter: temos de passar nas próximas autárquicas para mais de 100, porque senão corremos o perigo de desaparecer ou quase desaparecer, como aconteceu com outros partidos de referência na Europa, como o Pasok na Grécia ou o Partido Socialista francês. (...) O PSD tem de olhar à sua volta e perceber que também lhe pode acontecer o mesmo.
Inverter isto, significa desde logo fazer o contrário: primeiro, fazer uma demarcação ideológica muito clara: somos sociais-democratas, não somos a direita; depois temos de conseguir chamar à participação política não só os militantes que já tivemos e que entretanto se foram afastando, como novos militantes, pessoas da sociedade para aderirem ao partido. E temos de ter um partido vivo, que lá dentro debate os grandes temas nacionais, e não só em Lisboa, mas em Bragança, na Guarda, em Beja, aqui nos Açores, no Porto. (...) Não é fecharem-se meia dúzia numa sala em Lisboa, fazem um papel, eventualmente até muito bem feito, e depois essa é a opinião do partido. Não! Nós todos temos de participar. (...) Não podemos ter um partido que se vai fechando, fechando, fechando, e enquistando, enquistando, enquistando e, a dada altura, há casos em que alguém diz “eu sou presidente do PSD há muito tempo no concelho não sei de onde” - está bem, mas o concelho de não sei de onde que já teve mil militantes, agora tem 150 e, destes só 50 pagam as quotas. Não é dono disto tudo! É dono de uma quinta! Isto tem de mudar!

O discurso da austeridade não acabou por afastar os portugueses do partido?


(...) O que aconteceu no período da troika: vivemos acima das nossas possibilidades durante muito tempo e depois tivemos de entrar em austeridade para minguar, para voltar a pôr as coisas no seu equilíbrio. Viver com o que temos não é austeridade. Se eu viver com aquilo que tenho não vivo nem folgado, nem em austeridade, vivo com o que tenho. O que eu quero é ter mais, para poder viver melhor! (...) O que o país teve foi austeridade, mas o que o país tem de fazer é viver com o que tem , cuidando de ter cada vez mais para viver cada vez melhor.

Aqui nos Açores, o PSD não tem conseguido alcançar as metas eleitorais a que se propôs. Também aqui o PSD tem de se reconciliar com os açorianos?


É necessário fazer esse trabalho de reconciliação no território nacional todo. Mas os resultados aqui até foram superiores aos resultados nacionais. Agora é sempre preciso fazer essa reconciliação! (...) Aqui nas eleições regionais o PSD tem de ter o mesmo objetivo: debater-se de igual para igual com o PS, para voltar a tentar ter o governo regional que já não tem há muito tempo. Para isso, tem de melhorar o seu entrosamento com a sociedade açoriana. (...)

Que mensagem traz aos militantes?


Sou candidato a líder nacional e quem é candidato a líder do PSD, é sempre quem o partido indica para candidato a Primeiro-ministro. E, por isso, esta mensagem está relacionada com os eixos de ação governativa nacional.

Os Açores têm procurado sensibilizar o poder central para uma diferenciação positiva dos Açores em relação à Madeira, tendo em conta a realidade insular de cada região. Qual é o seu entendimento?


Eu conheço as ilhas portuguesas todas. Até as Berlengas. Conheço as ilhas todas dos Açores. Portanto, tenho uma noção dessa realidade. É factual que a gestão de nove ilhas é diferente da gestão de duas ilhas. Para sermos justos, temos de tratar diferente o que é diferente, e igual o que é igual. E acho que na Madeira também reconhecem isso...

Os Açores têm algumas preocupações na ordem do dia, como a da Base das Lajes, a descontaminação e a revitalização da economia da ilha Terceira. O Estado tem aqui responsabilidade?


Acho que sim. O Estado tem responsabilidade porque isso emana de um acordo de perfil nacional. É evidente que se o país colheu benefícios, tem agora de cumprir com as populações locais. O problema da descontaminação é um problema gravíssimo. Temos de nos colocar na posição das pessoas da ilha Terceira. E o governo central tem de olhar para o problema como um problema nacional e encontrar uma solução! Penso eu que tem de o fazer com os americanos. Se vivesse na Terceira, não gostaria nada de ter esse problema!

A questão do mar e a sua gestão partilhada. Os Açores devem ter uma palavra a dizer sobre as decisões e os proveitos a retirar do seu mar?


Acho que sim , porque um dos problemas que os Açores têm é uma certa debilidade da sua economia. É uma economia muito ligada ao setor público. Portanto, tudo aquilo que for para desenvolver a economia regional na lógica da economia privada, libertando do peso orçamental, é sempre positivo para a Região. Se Portugal tem de olhar para o que se denomina de economia azul, por maioria de razão o tem de fazer nas suas regiões autónomas, particularmente nesta.

Aqui é quase unânime que se deve acabar com o cargo de Representante da República. Qual a sua opinião?


Penso que a figura está já muito esvaziada, relativamente ao que foi no passado, e por isso tenho alguma dificuldade em compreender a polémica. Se acabar, a diferença não é muita. Não me parece um tema de muito relevo para o futuro das duas regiões.

Qual a sua visão para os Açores?


Eu gostaria de ver os Açores com uma coesão social melhor. Os Açores têm problemas sociais graves. Se Portugal está substancialmente abaixo da média comunitária, os Açores, por sua vez, integrados em Portugal, têm problemas de ordem social muito superior aos que o país tem. É a região do país com a maior percentagem de rendimento social de inserção, e isto significa que a economia açoriana é débil, porque deveria oferecer empregos e salários que evitassem essa situação. A minha preocupação é ter uma economia regional mais robusta, e para ser mais robusta, há que libertá-la mais do jugo do Estado. Uma economia privada mais forte vai seguramente garantir maior equilíbrio social e maior coesão social, que é o traço mais preocupante da realidade açoriana.



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